20/09/11

À espera do famoso "clique" - Uma opinião


Em situações de avaliação psicopedagógica ou do desenvolvimento de crianças que nunca foram avaliadas anteriormente, apesar de, desde cedo, terem demonstrado dificuldades no seu desenvolvimento (numa área específica ou de uma forma generalizada) ou na sua aprendizagem escolar, ouço com muita frequência que os pais ou o pediatra ou a educadora de infância ou o professor estavam a aguardar pelo “clique”, que afinal não se chegou a dar (como se se tratasse de algo que surge do nada e, sem se dar por isso, resolve as dificuldades que a criança demonstrou até então), apesar de alguém (do já citados acima ou, com alguma frequência, os avós), já ter alertado para algo que não está bem.

O grande problema, na minha opinião (e na de vários colegas com quem tenho conversado sobre este tema), é que o famoso “clique” não é mais do que um mito associado aos “saltos” que se verificam ao longo do desenvolvimento convencional de uma criança – sempre que uma criança avança, de forma mais subtil ou evidente, no desenvolvimento ou aprendizagem de uma competência específica, diz-se que se deu o “clique”.

No entanto, estamos a falar de pequenos passos que fazem parte do desenvolvimento da criança e não de, perante uma criança que começa a demonstrar dificuldades e a “distanciar-se” em termos de desenvolvimento/aprendizagem, dos seus pares, aguardar de braços cruzados pelo tal “clique” ou salto (e este começa a ter de ser cada vez maior), que acontecerá em breve e resolverá a sua “imaturidade”.

Em conversas com educadores de infância e professores, há uma questão que surge com frequência: perante uma criança que lhes levanta alguma suspeita, deverão alertar os pais ou aguardar pelo “clique”? A minha primeira reacção, confesso, é o sorriso acompanhado pelo pensamento “lá vem o famoso clique” e, depois de desmontar este conceito com a educadora ou professora, transmito-lhe habitualmente a minha opinião: julgo que, tanto educadores como professores têm o dever de alertar os pais para qualquer situação que os preocupe relativamente ao desenvolvimento ou à aprendizagem de uma determinada criança.

Há, obviamente, várias formas de o fazer. Não precisam de ser alarmistas, pessimistas, nem avançar com possíveis diagnósticos baseados em experiências que possam ter tido anteriormente. Simplesmente utilizar o argumento (que pessoalmente considero valioso, especialmente vindo de alguém que passa tantas horas diariamente com a criança), de que comparativamente com o grupo (ou seja, com 24 outras crianças sensivelmente da mesma idade, expostas a um mesmo contexto escolar, e dando os relativos descontos ao facto de cada criança ter o seu ritmo de desenvolvimento e aprendizagem), aquela criança em particular não está a conseguir acompanhar os seus colegas numa ou noutra área e, por isso, valerá a pena tentar perceber o motivo para que se possa tentar ajudá-la a resolver as suas dificuldades atempadamente, não permitindo que se agravem e conduzam a limitações mais graves no seu futuro.

Haverá, por parte dos pais, reacções de todos os tipos. Para alguns será a confirmação de uma suspeita que já os persegue há algum tempo, para outros será uma surpresa e para alguns ainda será um completo disparate. Todos estes pais se preocuparão certamente com os filhos. Mais do que desinteresse ou negação, muitas vezes, trata-se simplesmente de uma diferença de estilos de personalidade que condiciona uma reacção diferente, seja esta em jeito de ataque, passividade ou defesa.

Mas se há algo a avaliar, que se avalie! Se há algo a fazer, que se faça! Se afinal, estamos perante um falso alarme e as notícias acabam por ser boas, com tudo dentro do esperado para a idade e nível de escolaridade, melhor ainda! Agora, aguardar de braços cruzados, fechar os olhos e esperar que passe, pode significar perder tempo valiosíssimo de intervenção. E esse, infelizmente, muitas vezes já não se consegue recuperar…

A grande questão que se põe é: na dúvida, valerá a pena correr esse risco?

08/07/11

Educação: Que motivação?



Sendo já fã daquilo a que chamo "conceito TED" e da oportunidade de conhecer "Ideas worth spreading" e tendo descoberto esta nova modalidade de eventos que hoje se inicia, decidi instantaneamente inscrever-me logo que tomei conhecimento do evento e respectivo tema.
Falar de motivação na educação é algo que encheria páginas e páginas, caso pretendessemos abordar esta questão por diferentes perspectivas. Quanto a mim, tentarei conter-me e resumir-me àquilo que considero verdadeiramente importante nesta questão...
Em termos gerais, é do senso comum que a motivação gera um efeito facilitador de sucesso em qualquer área...
Trabalhando eu em educação especial, dou-lhe especial importância porque a existência de uma motivação comum a todos os envolvidos no processo educativo de uma criança faz, na minha opinião, metade do trabalho.
Passo a explicar, fala-se muito hoje na desmotivação dos portugueses, devido às circunstâncias económicas do nosso país. De qualquer forma, não me parece uma questão do  presente... Basta pensarmos na típica resposta portuguesa "Vai-se andando..." para reconhecermos que sempre houve alguma desmotivação a pairar no ar. Voltando aos dias de hoje, e particularmente à desmotivação dos professores, há que reconhecer a desvalorização do seu papel na sociedade, a perda de "poder" no processo educativo, a perda de respeito por parte dos pais e das crianças, etc., etc.
Obviamente que o ideal será que os professores consigam manter a sua motivação para um ensino de qualidade e de sucesso, apesar das circunstâncias adversas que os rodeiam.
Em educação especial, parece-me que isto é vital! E isto porque não há tempo a perder! Se não se pode esperar pelo clique também não se pode esperar pela "sorte" de encontrar um educador/professor que esteja motivado para adaptar a sua forma de ensino a uma criança com NEE. Isto deveria ser um dado adquirido e, justiça seja feita a tantos profissionais de educação, é-o de facto em muitas situações.
Por outro lado, também os pais de uma criança com NEE têm de ir descobrir forças e energias que muitas vezes desconheciam ter e manter a sua motivação activa e centrada no desenvolvimento do seu filho. E isto é mais fácil para umas famílias do que para outras, e a aceitação da diferença e das limitações de um filho podem facilmente levar os pais a uma situação de desinvestimento educativo, provocado por variadíssimas circunstâncias mas, mais uma vez, agravado pelas circunstâncias sócio-económicas com que nos deparamos hoje em dia.
Mais uma vez, a motivação dos pais será o motor de arranque para o sucesso. São os pais mais fortes, mais resistentes e resilientes que, mesmo sendo realistas nas suas expectativas, conseguem não desistir de procurar o melhor para os seus filhos, valorizar os seus, mesmo que pequenos, progressos e, mantendo-se motivados, conseguem contagiar a equipa educativa e os seus próprios filhos com essa motivação.
E, no meio de todo este processo, temos também a motivação da própria criança. Por um lado, há crianças com uma motivação intrínseca para a aprendizagem e outras que só lá vão à custa de motivação extrínseca (serem premiados pelo esforço ou pelo sucesso, por exemplo).
Para além disso, há que reconhecer que é difícil mantermo-nos motivados numa tarefa que nos exige muito esforço. Especialmente quando percebemos que, para um mesmo resultado, o esforço dos nossos pares é muito menor (pela não existência do mesmo tipo de dificuldades). Pior ainda, se sentirmos que quem nos ensina não está muito preocupado com o nosso sucesso, por não estar motivado para o trabalho acrescido que as nossas especificidades exigem. E, para agravar, quando sentimos que defraudamos as expectativas daqueles a quem mais queremos agradar - os nossos pais - e os deixamos desmotivados para sonhar com o nosso futuro.
Temos também a motivação dos técnicos que acompanham a criança e que, por passarem os seus dias a "remar contra o tempo", tentando avançar passo-a-passo no desenvolvimento de cada criança que acompanham, sempre num envolvimento sério com os objectivos a que se propõem e à responsabilidade que têm para com cada criança e sua família, nem sempre se conseguem manter motivados para as duras batalhas que travam no seu dia-a-dia.
Mas isto será olhar para o copo meio-vazio...
Pensemos agora no copo meio-cheio, que tenho tido a felicidade de encontrar em variadíssimas situações.
Uma família motivada não desiste, investe o seu tempo, a sua energia, procura soluções, mantém-se atenta e colabora estreitamente com todos os membros da equipa que acompanha o seu filho.
Um educador/professor motivado, esforça-se para que todos os seus alunos, e não só alguns, consigam evoluir, cumprir os objectivos definidos e atingir o sucesso, à custa do trabalho e tempo extra que dedica a esta missão.
Um técnico motivado, investe os seus conhecimentos e a sua experiência em cada criança, como se ela fosse a única que acompanha e ajuda a família e a escola a percorrerem um caminho comum.
Obviamente que, reunidas estas condições, teremos uma criança mais motivada porque será contagiada pela motivação de todos os que a rodeiam. E sentirá que vale a pena o esforço porque esse esforço é valorizado e isso, por si só, motiva a criança a esforçar-se mais.
A motivação é, de facto, vital para o processo educativo mas também o é para tudo o resto na vida.
Pessoas mais motivadas são pessoas mais felizes. Tentemos desviar a nossa atenção das capas dos jornais e das notícias de abertura dos telejornais e concentremo-nos naquilo que é verdadeiramente importante para cada um de nós, estabelecendo prioridades na nossa vida e "perdendo" tempo (ou "ganhando", depende do ponto de vista) a valorizar pequenos detalhes que tantas vezes nos passam despercebidos. Reconheço que isto não é fácil para todos, nem todos os dias, mas julgo que devemos fazer um esforço por isso.
Estará aí o segredo da motivação? Na educação e na vida em geral?
E que motivação?
Isso estarei prestes a descobrir, uma vez que escrevo este texto nos momentos que antecedem o início do evento.
Confesso que as minhas expectativas são elevadas e que, quando as conferências forem classificadas segundo a grelha habitualmente utilizada nas TEDtalks, espero que ambas sejam colocadas na categoria "inspiring". Isso será sinal de que o evento foi um sucesso! Para mim e para todos os que lá estiveram!

01/07/11

TEDxLisboaED

TEDxLisboaED realiza-se a 7 de Julho de 2011, às 19h30, no Palácio de Galveias.
O TEDxLisboa inicia, assim, um novo formato de eventos TEDx.

O TEDxLisboaED é dirigido a todos aqueles que se interessam pelo tema, independentemente de terem um papel activo no processo educativo.

Este primeiro evento é dedicado ao tema da Educação e terá o mote "EDUCAÇÃO: QUE MOTIVAÇÃO?". Que fazer para motivar alunos, professores, pais? Que fazer para motivar os alunos? Que fazer para nos motivarmos a nós próprios numa altura em que é aceite por todos que algo tem de mudar na educação.


Pré-inscrições aqui:
http://www.tedxlisboa.com/inscricao

02/06/11

Petição pela manutenção do regime de deduções fiscais para os cidadãos com NEE, deficiências e incapacidades

Está a decorrer uma Petição Pública em defesa da manutenção do regime de deduções fiscais, em sede de IRS, relativo às despesas de saúde e educação de cidadãos com necessidades educativas especiais, deficiência ou incapacidade.

Eu já assinei!

Podem assinar aqui: http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N10560

Quando a pressão é demais - Artigo Expresso

Desejam tudo para os filhos, por isso querem que estes sejam os melhores.

Há pais que exigem em vez de pedir, que pressionam chamando-lhe ajudar.

E há miúdos que não aguentam...

Aqui http://aeiou.expresso.pt/quando-a-pressao-e-demais=f648489

Just the Way You Are - Vale a pena ver e ouvir!

Aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=9b7y9UYt_fM&feature=share

Discipline for Children: PDF Library for Parents

Disponível online e sempre útil!

http://www.myoutofcontrolteen.com/disciplineforchildren-PDFlibrary.html

Biblioteca de Livros Digitais

Em http://e-livros.clube-de-leituras.pt/

Integrado nas múltiplas acções do Plano Nacional de Leitura, a Biblioteca de Livros Digitais é um espaço dinamizador de iniciativas relacionadas com leitura e a escrita, que se assume como um agregado de livros de autores consagrados e aprovados pelo Plano Nacional de Leitura e, em simultâneo como um repositório de trabalhos realizados por pessoas interessadas em criar outros textos motivados pelo livro que acabaram de ler.

A Biblioteca visa criar um espaço comunitário na Internet, que se situa para lá do conceito tradicional de lugar da publicação na rede, entendido como mero repositório de trabalhos.

A Biblioteca é um lugar de partilhas, de troca de experiências, agregador de todos quantos promovem e usufruem do prazer de ler e estão interessados em alargar o seu ciclo de amigos e conhecidos.

Vale a pena visitar!

07/04/11

Os bons e os maus profissionais

Estive hoje presente num encontro especialmente dirigido a pais, organizado por uma Associação de Pais de uma escola pública, sobre Autismo e Inclusão.

Começo por louvar a iniciativa da Associação de Pais que, apesar de não ter (aparentemente) conseguido grande adesão dos pais, teve uma sala cheia, com a presença de vários profissionais de educação.

Foi um encontro interessante, útil para pais e professores e que julgo que, entre várias questões importantes, reforçou a ideia da necessidade de um trabalho de equipa.

E é por isso que não posso deixar de escrever esta mensagem, demonstrando o meu desagrado pelo comentário efectuado por uma educadora, que pôs enfaticamente em causa a qualidade da formação e do trabalho efectuado pelas(os) educadoras(es) e professoras(es) de educação especial.

Não sendo nem educadora nem professora de educação especial, apesar de de ter educação especial na minha designação profissional, não me senti individualmente ofendida pelo comentário.

Mas considero-o ofensivo para todas as educadoras(es) e professoras(es) que se esforçam para dar a melhor resposta possível às crianças que acompanham, que "perdem tempo" (ou ganham-no, dependendo do ponto de vista) em formações (em que o importante não é ir para receber o certificado no fim), em pesquisas, na construção de materiais individualizados, e que lutam contra as condições de trabalho que têm (que não favorecem uma resposta eficaz).

Acredito que a educadora em causa tenha tido uma má experiência, mas parece-me injusto generalizar!

Também eu já tive más experiências com educadoras menos empenhadas, psicólogos menos competentes, médicos menos interessados, pais mais complicados... Julgo mesmo que só com as crianças é que não se têm más experiências... Mas não é por isso que deixo de reconhecer a mais-valia que cada categoria profissional pode trazer para a construção de um processo educativo.

Além de que, com generalizações negativas, contaminamos logo todo o processo - deixa de haver hipóteses de se fazer um trabalho de equipa frutuoso, em que todos sentem que têm algo a aprender com os restantes membros da equipa.

Sozinhos, não vamos lá certamente! É o todo que dá o verdadeiro empurrão! E, se nos empurrarmos uns aos outros (em vez de deitarmos os outros abaixo), conseguiremos certamente ir mais longe...

É só a minha opinião...

05/04/11




O blog http://mylovestory-esclerosetuberosa.blogspot.com/ atribuiu, com simpatia, um selo de reconhecimento ao Crescer Especial, que agradeço!


Aproveitem para espreitar o blog, sobretudo destinado a Pais, Familiares e Amigos de Doentes de Esclerose Tuberosa de Portugal.



Descobri recentemente esta revista interessante, da Federação das Doenças Raras de Portugal.


Mais informações em http://www.fedra.pt/.


Vale a pena aproveitar!


Free access to all Routledge Journals in the field of Education throughout April 2011Routledge offers free access to all journals in the field of education until the 30th of April, 2011.

Start browsing all education journal titles by subject at




There are 238 journals listed in the field of education.

21/03/11

Direito a Brincar

Em criança, não me lembro de não ter tempo para brincar, para fazer o que me apetecesse, para estar até sem fazer nada. Recordo-me aliás de, a dada altura das férias grandes (e que, nessa altura, eram mesmo grandes), me queixar de já não saber o que fazer com o tempo, o que deixava a minha mãe indignada, a olhar para mim e para os meus brinquedos, enquanto me dizia: “Vai brincar!”, como quem diz: “Aproveita!”.

Hoje, como mãe e como pessoa que trabalha com crianças, angustia-me perceber que esse tempo para brincar se perde se não fizermos um esforço para o conceder às crianças. O ritmo do dia-a-dia mudou, os avós já não estão tão disponíveis, as férias já não são tão grandes e são muitas vezes preenchidas com actividades e mais actividades, porque a organização familiar assim o exige.

Mais ainda, custa-me ouvir crianças a queixarem-se de cansaço, não porque estiveram a correr ou a saltar, mas porque simplesmente vivem a um ritmo quase alucinante. Mesmo no dia-a-dia, as crianças ficam cada vez até mais tarde na escola, em actividades estruturadas e, após a escola, têm ainda várias actividades extra-curriculares porque todas parecem importantes (actividades desportivas porque é desporto e faz bem à saúde; música, porque é uma actividade enriquecedora e importante para a aprendizagem; línguas, porque são importantes para o futuro; etc, etc.) quer sejam os pais a propor/impor, quer sejam as próprias crianças a pedir.

Reconheço que, mesmo como mãe, me deparo com o dilema de que actividade(s) escolher com as minhas filhas, tendo em conta primeiro que tudo os seus interesses mas também todos os outros factores que pesam na decisão (horários da actividade, preço, organização do horário semanal, logística de ir pôr e buscar, localização, etc.) e, se uma pessoa se deixar ir, quando dá por si, já preencheu completamente o horário semanal da criança e o brincar, como as próprias crianças são capazes de dizer, fica para o fim!

A questão fulcral aqui é que brincar é tão ou mais importante do que tantas actividades que se propõem por aí. É a brincar que a criança imagina, sonha, concretiza e se abstrai daquele que é o seu mundo e tem oportunidade de experimentar, criar e aprender. Quer seja sozinho ou acompanhado, os momentos de brincadeira não são só momentos de pausa ou para entreter. São momentos que devem ser valorizados e promovidos!

A criança deve saber brincar sozinha porque, nesse momento, pode dar asas à sua imaginação, sem quaisquer constrangimentos ou limites impostos pelos outros. Mas também deve brincar com os irmãos e os amigos, porque aprende a partilhar, a respeitar os desejos do outro, a aguardar a sua vez, a negociar e a ceder quando é preciso. E, quando se brinca a dois, a três ou mais, a imaginação multiplica-se exponencialmente e o quarto onde se brinca pode transformar-se em qualquer cenário imaginário, com as personagens que se quiserem criar e onde tudo pode acontecer!

E brincar com os pais é essencial para o estabelecimento de uma relação afectiva harmoniosa e segura entre pais e filhos, em que os pais conseguem fechar a porta ao mundo dos adultos e descer ao nível da criança, partilhando com ela momentos de pura diversão (sem interrupções constantes para atender o telefone ou para ir enviar um email urgente para o trabalho).

Se perguntarmos às crianças, elas dirão certamente que a sua actividade preferida é brincar e que, provavelmente, é mais divertido brincar com os pais, os irmãos, os amigos, do que sozinho com o último jogo da consola (que, a propósito, recebem como prenda cada vez mais cedo...). Se a resposta não for esta, a meu ver, é mau sinal... É sinal que têm brincado pouco nos seus curtos anos de vida e que lhes têm faltado companheiros de brincadeira.

E é nessa altura que nos devemos recordar (porque vamos sempre a tempo) que brincar é um direito da criança. E é um direito porque é essencial para um desenvolvimento cognitivo-sócio-emocional saudável. E, por isso, não precisa de ser encaixado no horário da criança, mas também não deve ser deixado para o fim... porque depois, pode já não haver tempo!

Boas brincadeiras!

07/12/10

Estudo revela malefícios da utilização do telemóvel por grávidas

"As grávidas que utilizam regularmente o telemóvel correm um risco acrescido de terem crianças com problemas comportamentais, sobretudo se estas também usarem o telemóvel precocemente, conclui um estudo dinamarquês. O estudo baseou-se na amostra de nascimentos dinamarquesa, incluiu cerca de 100 mil mulheres grávidas entre 1996 e 2002 e cobriu mais de 28 mil crianças que atingiram a idade de 7 anos em Dezembro de 2008.

A investigação segue-se a um primeiro estudo que incidiu sobre cerca de 13 mil crianças - que faziam 7 anos em Novembro de 2006 - e que já apurara uma ligação entre exposição pré-natal e perturbações do comportamento.

Os novos dados, publicados hoje pela revista Journal of Epidemiology and Community Health, mostram que mais de um terço das crianças (35 por cento) utilizam um telemóvel, contra 30 por cento no primeiro estudo.

Concluiu-se também que 17 por cento tinham sido expostas aos telemóveis antes e depois do nascimento, contra 10 por cento no primeiro estudo.

Pelo contrário, 53 por cento das crianças do primeiro estudo e 39 por cento do segundo não tinham sido expostas, nem antes nem depois do nascimento.

As categorias de exposição foram definidas segundo vários critérios: número de chamadas diárias, localização do aparelho quando não estava a ser utilizado (em saco ou bolso de vestuário) e utilização de auricular.

Nos dois estudos verificou-se que cerca de três por cento das crianças foram consideradas como tendo um comportamento anormal e outras tantas apresentavam um risco de comportamento anormal.

Os investigadores apontaram que as crianças expostas ao telemóvel antes e depois do nascimento tinham um risco de apresentarem problemas de comportamento 50 por cento superior aos das crianças não expostas. Para as crianças expostas unicamente antes do nascimento, o risco aumentava em 40 por cento.

Para validar os seus resultados, os investigadores consideraram outros factores possíveis de influência, como o tempo passado pela mãe com o filho.

«Mesmo que seja prematuro interpretar estas resultados como tendo um laço de causalidade, receamos que a exposição precoce aos telemóveis possa comportar um risco que, se se comprovar, seria um problema de saúde pública, dada a utilização generalizada desta tecnologia», sintetizam os autores."

Lusa / SOL - 7 de Dezembro, 2010

26/10/10

MODELAGEM DAS TAREFAS E PROCESSAMENTO VISUAL NO AUTISMO

Entre as crianças com autismo, a capacidade e o interesse pela imitação variam. Muitas vezes, as dificuldades de imitação são evidentes sobretudo em questões de natureza social, como imitar a forma de agir dos seus pares, e não tanto (mas também) em tarefas como imitar uma construção com peças de madeira.

Tendo em conta esta possível dificuldade, no momento de ensino de determinada actividade que se baseia na imitação, deve-se dividir a tarefa em tantas partes memorizáveis quanto possível, em detrimento de deixar a criança simplesmente a observar o modelo.

Além disso - e porque as crianças com autismo, apesar de olharem para o modelo no seu todo, experienciam grandes dificuldades na percepção do todo e na análise dos seus componentes e a forma como estes se inter-relacionam, focando-se em determinados detalhes - numa actividade de construção de uma pirâmide com blocos de diferentes cores e tamanhos, se dermos à criança a caixa de blocos e esperarmos que ela reproduza o modelo vamos verificar que será uma tarefa demasiado complicada.

No entanto, se a ajudarmos, numa primeira fase, a dividir os blocos por cores e depois por tamanhos, e depois dividirmos o todo em partes, mostrando-lhe como construir a pirâmide por camadas, seleccionando os blocos de determinada cor e tamanho necessários a cada uma delas, a criança desenvolverá estratégias de compensação à sua incapacidade de percepcionar o todo e conseguirá completar a tarefa.

De facto, esta característica perceptiva pode até explicar a insistência em certas rotinas como beber o sumo de maçã sempre num determinado copo como se não lhes fosse possível separar as características do sumo de maçã das características do copo e não perceberem, portanto, que o sumo de maçã terá o mesmo sabor independentemente do copo em que seja servido.

Outro exemplo característico do processamento visual na criança com autismo (e da sua implicação na modelagem de tarefas) é a construção de puzzles. É frequente verificar-se que a criança com autismo, em vez de procurar 2 peças que pareçam ser adjacentes (pela observação da imagem), tende a manipular as peças ajustando as formas entre si, independentemente da imagem das peças corresponder.Existe, inclusive, um estudo que mostra que as crianças com autismo têm desempenhos semelhantes na resolução do mesmo puzzle, quer a sua superfície esteja em branco, tenha um desenho abstracto ou uma imagem concreta – centrando-se na forma e não no conteúdo. As crianças em idade pré-escolar, com um desenvolvimento convencional, preferem claramente os puzzles com imagens e têm um desempenho mais rápido nos mesmos.


Adaptado de: Siegel, B. (2008). O mundo da criança com autismo. Porto Editora

13/10/10

PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO NO AUTISMO: ESTRATÉGIAS MAIS ADEQUADAS

Nas crianças com autismo, a “via linguística” é, com frequência, a mais fraca.

É habitualmente esse o caso de crianças que, por um lado, parecem deixar de ouvir grande parte dos enunciados que lhes são dirigidos e que, por outro, mesmo ouvindo outras pessoas a usá-las, não aprendem palavras novas com facilidade. É, aliás, típico não fazerem uma aquisição “acidental” da linguagem, ou seja, não lhes basta ouvir outras pessoas a falar para aprenderem novas palavras.

Tendo em conta esta característica, o ideal será complementar a “fraqueza” do sinal proveniente do modo linguístico com um sinal mais eficaz de outro modo de comunicação. Frequentemente, nas crianças com autismo, esse modo mais forte é o visual. Sendo assim, associar estímulos auditivos a estímulos visuais ajuda a receber e a reter mais eficazmente a informação.

Um bom ponto de partida é a utilização de representações visuais atractivas que ajudem a captar a atenção: podem ser alimentos preferidos, brinquedos favoritos, imagens de locais onde a criança gosta de ir, etc. Com essas imagens podem ser construídos exercícios que serão usados para promover competências ao nível da linguagem receptiva (mostrar, entre duas imagens, qual é a banana, por exemplo) ou expressiva (nomear um objecto ou, a um nível mais complexo, descrever o contexto de uma imagem, por exemplo).

Qual é o tipo de tarefa e material mais adequados para uma determinada criança vai depender, obviamente, do nível de linguagem receptiva e expressiva em que ela se encontra.

Em níveis iniciais, pode-se começar por recorrer a objectos tridimensionais e, a pouco e pouco, vai-se intensificando o nível de abstracção, passando para as fotografias, as imagens coloridas e, só depois, os desenhos só com contorno.

Para além disso, para algumas crianças em particular, o alfabeto é particularmente atraente e, portanto, o reconhecimento visual de palavras é uma boa forma de apoiar a compreensão auditiva, fornecendo uma pista visual adicional.

Adaptado de: Siegel, B. (2008). O mundo da criança com autismo. Porto Editora